sábado, 4 de setembro de 2010

Intolerância Religiosa (parte I)

Sou um grande entusiasta da liberdade de expressão religiosa, pois entendo que assim como a liberdade política ela é fundamental em uma sociedade democrática. Quero tratar aqui, mesmo que um pouco superficialmente, dos casos de coibição dessas práticas, em outras palavras, da intolerância religiosa.A solução mais precipitada e menos reflexiva é, obviamente, culpar a religião ou os religiosos e fazer a utópica afirmação que um mundo sem religião seria um mundo mais pacífico (Imagine all the people...).

O que quero demonstrar aqui é a tênue diferença entre religião e política ou então os jogos de poder na qual a primeira é submetida. Afinal, o que é religião? Você já parou pra se perguntar isso? Como definir o que é ou o que não é uma religião? Tendo uma ínfima atuação no campo antropológico dessa área posso lhes afirmar que é impossível ter uma definição de religião que englobe tudo aquilo que é considerado religião. Não cito bibliografias aqui porque não é esse o intuito desse blog, mas tudo o que digo aqui de certa maneira tem influências dessas leituras.

É de praxe nesse assunto começar falando da Igreja Católica, afinal sendo a mais velha dentro da nossa cultura torna-se sempre o alvo mais fácil. Dos inúmeros casos da cito aqui apenas um: o massacre de Lisboa.


No ano de 1506 milhares de judeus foram mortos em apenas três dias em grandes fogueiras públicas pelos cristãos que julgavam serem eles os responsáveis pela fome que assolava aquele país. Tendo sido expulsos da Espanha pelos imperadores, milhares de judeus migraram para Portugal em busca de abrigo e o imperador daquele país Manuel I, por sua vez, não fez absolutamente nada para os receber.

Dada a seca que assolava a península Ibérica, com o contingente populacional tendo sido triplicado, obviamente as demandas de comida aumentaram e as pestes se alastraram por todas as classes sociais. Os portugueses, cristãos, aterrorizados com aquela situação obviamente culparam os imigrantes, judeus. Dado o sistema político teocêntrico os portugueses interpretaram aquilo como um castigo divino pela quantidade considerável de não cristãos naquele país.

Assim, em uma situação limite de seca, fome e doença de maneira contraditória alguns cristãos chegaram à absurda conclusão de que a melhor maneira de acabar com essa situação seria matando todo aquele que não fosse cristão, ou em algum momento não tivesse sido, em grandes fogueiras. Assim morreram muçulmanos, cristão-novos e judeus. Em um primeiro momento o imperador português não fez nada, afinal com o a diminuição do contingente populacional seria mais fácil administrar aquela situação. Porém com o desenvolver da matança, alguns judeus mais próximos e amigos do imperador começaram a ser mortos também e foi só assim que ele mandou tropas para conter a carnificina.

Pergunto a vocês: é correto reduzir todo esse panorama histórico apenas a dimensão religiosa? Ou também estão presentes aqui dimensões políticas de xenofobia, saúde precária e falta de alimentos? Obviamente haviam portugues cristãos contra a matança assim como judeus poderosos não foram mortos. Aliás, você acha que se os portugueses e os imigrantes tivessem outras religiões ou simplesmente não tivessem eles não entrariam em confronto?

Entendo que seria ingenuidade reduzir essa situação a sua dimensão religiosa unicamente porque era o vocabulário religioso o predominante na época. Fazendo um paralelo anacrônico: é como se pegando os casos de imigração de latinos nos Estados Unidos reduzíssemos toda a sua complexa situação unicamente a dimensão econômica por ser esse o vocabulário predominante da nossa época (peraí, mas é exatamente isso que fazemos!).

Continua...

7 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Creio que análises e críticas estão presas a uma vertente hegemônica presente na época de sua concepção. Logo é difícil fugir de uma análise econômica quando se analisa xenofobia atualmente, como é fácil enxergar uma análise simplista religiosa do momento histórico descrito no post, sem levar em conta todos os fatores presentes no contexto geral. Não creio que seja ingenuidade, apenas um viés da análise. O que acho importante salientar, e que me fez pensar na crítica final no post,é não levar este viés como verdade absoluta, pois é uma análise micro, e análises e críticas podem ser feitas por diversos visões. O maior problema como disse, é definir nossa análise como verdade absoluta, principalmente se feita por um viés histórico-econômico.

    Enfim, um ótimo post para repensar que merda estamos pensando, e repensar por outras visões.

    Abraços

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  3. A intolerância religiosa é a maior contradição que existe, dada o pressuposto pacífico que - em teoria - pregam todas as religiões. O post está excelente. Às vezes internalizamos a intolerância religiosa e esquecemos como é nonsense, e uma justificativa baixa para a fraqueza humana. Em todos os seus aspectos.

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  4. Na linha da Rosa, em minha opinião, o que rompe o pressuposto pacífico e traz a contradição à tona é a institucionalização das religiões. A partir do momento em que uma religião torna-se uma instituição (com hirarquia, poder econômico, influência política), o objetivo maior desta passa a ser a manuntenção de seu poder de influência, arrecadação e status quo. Essa luta pela auto-manutenção da-se a todo custo, sobrepondo-se aos princípios originários da própria religião, relegados a segundo plano.

    A isso somam-se pessoas distantes dos princípios pregados que ingressam na burocracia da instituição religiosa para tirar outro tipo de proveito, pessoal ou político.

    Evidentemente, concordando com o blogueiro, os conflitos ditos religiosos não podem ser explicados apenas pela religião em si, ou mesmo pela sua institucionalização, mas têm determinações diversas, e cada caso merece ser estudado dentro de seu contexto cultural, econômico, político ou geo-político.

    Abraços,
    Enrico.

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  5. Creio apenas que devemos atentar para o fato de que o " pressuposto pacífico" das religiões alterou-se profundamente ao longo dos anos. Não é, nesse sentido, uma contradição entre o comportamento da IC em 1506 e sua profissão de fé.

    É no contexto de universalização dos direitos do homem que se universaliza a piedade cristã. Antes do momento contemporâneo, a humanidade esteve limitada aos fiéis. Aos infiéis sempre coube a fogueira.

    Não creio também que o problema seja apenas institucionalização da religião no que tange à intolerância religiosa. É inerente às religiões de salvação mundial - inclusive como recurso de dominação - o monopólio do acesso ao reino dos céus. Esse é, essencialmente, seu único recurso de dominação e a perseguição dos "infiéis" é a contrapartida necessária da universalização da religião.

    Não se universaliza uma religião que diz que é o único caminho para Deus, admitindo que tds os homens são filhos de deus e por isso devem ser respeitados. Reitero, assim, a necessidade de perceber a importância do mundo democrático contemporâneo sobre os valores das religões, em especial da Igreja Católica.

    Quando Weber e Carl Schmitt diziam que a IC era a continuação do universalismo romano não estavam imaginando uma irmandade universal, mas, na verdade, o projeto de um império universal centralizado em Roma. Isso posto,
    me parece claro que faz parte de qualquer religião, como forma de dominação, a produção do inimigo, do infiel, e sua extinção do reino de Deus. A institucioñalização da IC não é algo diferente que deturpa a religião. Pelo contrário, é sua contraparte necessária para sua dominação universal
    Enfim, era esse o comentário.

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  6. Caro Bizzarro,

    Concordo em parte de seu comentário, mas discordo em todos os aspectos generalizantes. Creio que sua análise é profundamente sociológica, e por isso generalizante, e pouco antropológica.

    Ao meu ver é impossível uma teoria geral de qualquer religião, ainda mais do catolicismo que é infitamente múltiplo. Seus argumentos seriam parcialmente válidos (parcialmente porque discordo de algumas colocações históricas) se considerássemos apenas a instituição da igreja católica, o vaticano, e não a religião católica, que é o que estou debatendo aqui.

    ps: a parte II vem vindo aí...

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  7. Não compreendo sua discordância, adriano. Meu ponto era, exclusivamente, tentar comentar o tal "pressuposto pacífico" do catolicismo. Como disse, tal pressuposto não cabe para nenhuma das religiões de salvação mundial.

    A multiplicidade do catolicismo e a adequação "parcial" de meus argumentos já me deixam satisfeitos. Minha posição nesse sentido é evidentemente incompleta e superficial. Creio, e deriva daí minha incompletude, que tal separação entre a Igreja Católica e os catolicismos é absolutamente equivocada. Toda a multiplicidade do catolicismo é articulada na Igreja Católica. É seu caráter de complexo opositorium que conseguiu sustentar o catolicismo ao permitir, justamente, essa tal multiplicidade.

    Como disse, é parcial, limitado e superficial meu argumento.

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