sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Conservadorismo e machismo


Recentemente, escrevi um post em que discutia sobre a existência de uma onda conservadora no Brasil. Um assíduo comentarista deste blog me escreveu um e-mail contestando meu argumento, e um dos pontos levantado foi dizer que ondas vêm e vão, e o conservadorismo nunca saiu do Brasil. Concordei com esse ponto, embora reconheço que nem eu, nem Chico Alencar, nem Marina Silva, nem o editorial da Istoé, usou o termo 'onda' nesse sentido, mas talvez em um sinônimo de 'fenômeno político-cultural que se fortalece'. No caso do conservadorismo, concordo que sempre foi forte, mas nessas eleições parece ser explicitado de uma maneira bastante enfática.

Antes de abordar dois casos lamentáveis inscritos nesse conservadorismo que se explicita cada vez mais, vou tentar esboçar uma breve definição. Entendo o conservadorismo, na nossa sociedade ocidental, como uma feição cultural - de implicações políticas relevantes - atrelada à manuntenção, à conservação, de valores historicamente construídos, como o machismo, a homofobia, o preconceito de classe, o preconceito étnico, um apego nostálgico à cristandade (o tempo em que a Igreja se confundia com o Estado e impunha seus valores a todos os setores da sociedade) e, como conseqüência, um medo da emergência de posturas políticas desconstrutoras de alguns dos valores que se quer conservar, bem como em relação às suas implicações legais e políticas.

As eleições recentes, portanto, vêm dando uma aula prática de conservadorismo, por parte dos dois candidatos que concorrem à presidência, talvez um pouco mais por parte de um que da outra, mas por ambos de todo modo.

Nesse contexto, encontra-se o primeiro caso, o mais sutil, que quero abordar aqui: a declaração de José Serra pedindo que cada menina bonita conquiste 15 votos de seus pretendentes para sua campanha. Ninguém nega que há um padrão cultural de beleza que se impõe às mulheres (e aos homens também, claro), sempre alimentado pelo mercado da moda e dos produtos de beleza através da publicidade e dos meios de comunicação, levando, nos casos mais extremos, à anorexia e bulimia por parte daquelas que incorporam de uma maneira mais radical essas imposições. Assim, há, objetivamente, um padrão de beleza feminina alimentado pelo mercado (não originado por ele) que gera consequencias psicologica e fisicamente trágicas. Os movimentos feministas, dentre outras reivindicações, visam a desconstrução desses valores culturais, assim como do valor negativo, histórico, da mulher enquanto objeto masculino, instrumentalizada para fins diversos. A declaração de José Serra, apesar de não trazer tão explicitamente esse tipo de postura condenável, legitima - pois se trata de um homem público, presidenciável - alguns valores conservados que se quer desconstruir. É lamentável esse tipo de declaração por parte de um candidato à presidência. O caso, evidentemente, não foi perdoado pelos twitteiros.



Mas, infelizmente, não foi este, nem de longe, o caso mais entristecedor da semana. A opressão das mulheres, em especial daquelas que não se enquadram no padrão cultural de beleza que deve ser descostruído, teve sua ilustração mais clara no caso do Rodeio de Gordas, ocorrido no torneio universitário Interunesp. O caso extrapola em muito uma mera situação de machismo, sendo um exemplo claro, a um só tempo da emergência e da decorrência, do que Boaventura de Sousa Santos (sociólogo português o qual tenho lido muito nas últimas semanas) denomina fascismo social:

"O fascismo social é um conjunto de processos sociais mediante os quais grandes setores da população são irreversivelmente mantidos no exterior ou expulsos de qualquer tipo de contrato social. (...) Se se permitir que a lógica do mercado transborde da economia para todas as áreas da vida social e se torne o único critério para a interação social e política de sucesso, a sociedade tornar-se-á ingovernável e eticamente repugnante, e, seja qual for a ordem que venha a se efetivar, ela será do tipo fascista" (SANTOS, B. S., A gramática do tempo: para uma nova cultura política, p. 192-193).



É difícil avaliar qual o real risco da difusão ou não desse 'fascismo social' de Boaventura. Contudo, cabe apropriar-se da idéia na luta pela superação de suas possíveis origens: uma postura político-cultural conservadora, legitimadora de determinados comportamentos segregadores, opressores, preconceituosos; e a prevalência da lógica do mercado nas relações sociais (Habermas talvez chamaria isso de 'colonização do mundo da vida pelo Sistema').

Este blog (creio poder falar em nome de todos) repudia os dois casos supracitados, em especial o segundo, pela violência física, pelo constragimento explícito, pela humilhação desumana.

Um abraço de solidariedade às mulheres vítimas dessa atitude deplorável.

Enrico Bueno.


PS: Mafalda para descontrair (?)

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Recomendação

Bom dia, meus caros.

Venho recomendar-lhes o blog do Coletivo Miséria, que traz crítica política e social em quadrinhos que desafiam as regras da polidez e da correção. Muito interessante para se divertir e refletir.

O endereço dos caras é: http://miseriahq.blogspot.com

Abaixo, reproduzo uma charge do blog.
Abraços,

Enrico.


sexta-feira, 22 de outubro de 2010

As diferentes - e belas - correntes da música dos anos 70

Meus caros, nesta sexta vos convido para uma apreciação, não só sonóra, mas também visual, estética, olfativa, sensorial, de algumas músicas dos anos 70 - essa maravilha de danças coreografadas, discotecas, muito rock'n'roll, e por ai vai.

Primeiro, trago para vocês a sensibilidade dos The Manhattans, com a música Let's kiss and say goodbye.

Imagine o quão carinhoso e sentimental é o autor de efusiva letra. Que forma mais bela, discreta, silenciosa, sincera, aconchegante de se terminar um relacionamento! As lembranças, a última dança juntos e tudo isso totalmente incorporado na leveza dos passos dos integrantes, na docilidade da voz do cantor.



[Spoken]
This has got to be the saddest day of my life
I called you here today for a bit of bad news
I won't be able to see you anymore
Because of my obligations, and the ties that you have
We've been meeting here everyday
And since this is our last day together
I wanna hold you just one more time
When you turn and walk away, don't look back
I wanna remember you just like this
Let's just kiss and say goodbye

[Song]
I had to meet you here today
There's just so many things to say
Please don't stop me 'til I'm through
This is something I hate to do
We've been meeting here so long
I guess what we done, oh was wrong
Please darlin', don't you cry
Let's just kiss and say goodbye (Goodbye)

Many months have passed us by
(I'm gonna miss you)
I'm gonna miss you, I can't lie
(I'm gonna miss you)
I've got ties, and so do you
I just think this is the thing to do
It's gonna hurt me, I can't lie
Maybe you'll meet, you'll meet another guy
Understand me, won't you try, try, try, try, try, try, try
Let's just kiss and say goodbye (Goodbye)

(I'm gonna miss you)
I'm gonna miss you, I can't lie
(I'm gonna miss you)
Understand me, won't you try
(I'm gonna miss you)
It's gonna hurt me, I can't lie
(I'm gonna miss you)
Take my hankerchief, wipe your eyes
(I'm gonna miss you)
Maybe you'll find, you'll find another guy
(I'm gonna miss you)
Let's kiss and say goodbye, pretty baby
(I'm gonna miss you)
Please, don't you cry
(I'm gonna miss you)
Understand me, won't you try
(I'm gonna miss you)
Let's just kiss
And say goodbye


Que coisa linda e sincera não é mesmo meu caros?! Agora, limpemos as lágrimas derramadas no canto do rosto! Dando sequência então, vamos para os grupos que com brilhantismo usam seus vestidos 'rendados', - é essa a descrição?! - os cabelos cacheados e o malandro americano com suas efusivas danças de discoteca. Uma estética tão própria que só mesmo o Play Back pode proporcionar, dando espaço assim para a performance única deste grupo, que apenas simbolizam todo o movimento de uma época.

Simplesmente sensacional:


Bonney M - Ma Baker

Acompanhe a letra AQUI


Da vontade de sair dançando na sala não é mesmo?! Contagiante no mínimo.

E por último, vamos ao nosso rock'n'roll. Tão estereotipado pela sua transgressão, esse grupo nos mostra o singelo amor de um rapaz por uma moça(?!). Vemos na verdade a solidão desses grupos, isolados na sua época pela imagem que os outros tem deles. A imagem do rebelde, do drogado, etc., na verdade são reflexos da sua solidão e da falta do carinho de uma outra pessoa, seja quem for!

Emocionante!

Kinks - Lola

I met her in a club down in old Soho
Where you drink champagne and it tastes just like cherry-cola [LP version:
Coca-Cola]
C-O-L-A cola
She walked up to me and she asked me to dance
I asked her her name and in a DARK BROWN voice she said Lola
L-O-L-A Lola lo-lo-lo-lo Lola

Well I'm not the world's most physical guy
But when she squeezed me tight she nearly broke my spine
Oh my Lola lo-lo-lo-lo Lola
Well I'm not dumb but I can't understand
Why she walked like a woman and talked like a man
Oh my Lola lo-lo-lo-lo Lola lo-lo-lo-lo Lola

Well we drank champagne and danced all night
Under electric candlelight
She picked me up and sat me on her knee
And said little boy won't you come home with me
Well I'm not the world's most passionate guy
But when I looked in her eyes well I almost fell for my Lola
Lo-lo-lo-lo Lola lo-lo-lo-lo Lola
Lola lo-lo-lo-lo Lola lo-lo-lo-lo Lola

I pushed her away
I walked to the door
I fell to the floor
I got down on my knees
Well I looked at her and she at me

Well that's the way that I want it to stay
And I'll always want it to be that way for my Lola
Lo-lo-lo-lo Lola
Girls will be boys and boys will be girls
It's a mixed up muddled up shook up world except for Lola
Lo-lo-lo-lo Lola

Well I'd left home just a week before
And I'd never ever kissed a woman before
But Lola smiled and took me by the hand
And said little boy I'm gonna make you a man

Well I'm not the world's most masculine man
But I know what I am and IN BED I'm a man
And so is Lola
Lo-lo-lo-lo Lola lo-lo-lo-lo Lola
Lola lo-lo-lo-lo Lola lo-lo-lo-lo Lola 


Vejam então, deêm mais amor e atenção aos rockeiros, eles são pequenos seres indefesos.
Um bom final de semana a todos vocês meus caros!!

terça-feira, 19 de outubro de 2010

A favor da vida

Ninguém mentalmente são é contra a vida.
Repito: ninguém mentalmente são é contra a vida

(por mentalmente são considero aqueles que não sofram de transtornos psíquicos que interfiram na sua capacidade de discernimento).

Ora, se ninguém mentalmente são é contra vida e consideramos que os dois candidatos a presidência não sofrem de transtornos psíquicos graves, porque esse tema tomou conta do debate eleitoral?


Vamos por pontos: o primeiro é que "ser contra a vida" não passa de um eufemismo para "ser a favor do aborto" mas, existe alguém que seja simplesmente "a favor do aborto"? Existe alguém que queira "matar criancinhas" ou fazer "holocausto dos bebês"? (usando os termos correntes dessa eleição bizarra).

- Ai Josicleide, você é favor do aborto?
- Tipo assim, sou super a favor! Acho que todo mundo devia fazer porque tá super em voga, é a tendência pra esse verão. Vai dizer que você nunca fez menina?

Não. ninguém é simplesmente "a favor do aborto". Nenhuma mulher faz aborto porque acordou com vontade ou porque tá na moda. Existem muitos motivos (que não caberia elencar aqui) que levam uma mulher a decidir abortar e, maioria delas que decide fazer isso, acaba fazendo. As que tem grana pagam um médico que faça e quem não tem grana recorre aos mais diversos métodos alternativos (de agulha de tricô a chute na barriga).

Fato é que cerca de duas mulheres são internadas por dia vítimas de métodos alternativos e centenas morrem todo ano pelo mesmo motivo. E o que o Estado deve fazer? Essas eleições dão a entender que o Estado deveria prender essas mulheres ou fingir que nada está acontecendo. Fazendo isso não estariam atentando contra a vida delas também? Uma mulher merece morrer por ter feito um aborto?

Convido vocês, junto comigo, a vestirem os lindos óculos da antropologia: existe algo chamado relativismo cultural. Em culturas distintas ou mesmo dentro de uma mesma cultura (como é o caso) pessoas costumam ter interpretações distintas sobre um mesmo conceito. Usando um exemplo bem chulo, mas didático: algumas etnias indígenas usam o alargador na orelha para simbolizar poder, enquanto no nosso meio urbano é usado como símbolo de diferença ou como ornamento.

E o que o aborto tem a ver com o alargador do índio? Tudo.


O conceito de "vida" é muito, mas muito diverso: muito mais que do alargador.

Para uma corrente do budismo tudo que se mexe sozinho tem vida. Ou seja, matar um pernilongo ou a sua mãe são o mesmo tipo de atentado a vida. Para os nazistas apenas os arianos tinham direito a vida, ou seja, judeus e negros podiam ser mortos sem problema moral algum. E assim vai...

O que acontece hoje no Brasil? Algumas religiões consideram o feto um ser humano vivo e por isso o aborto seria um atentado contra a vida. Enquanto outras pessoas fazem cálculos de qual mês o feto pode ser considerado vivo e outros ainda dizem que só é vivo depois de ser parido.

1) Todas essas pessoas, com todas essas interpretações sobre a vida, são brasileiras.
2) O Estado brasileiro é laico, assim deve atender as demandas dos brasileiros de todos os credos (aqui abro espaço para ser veementemente criticado pelos ilustres sociólogos e politicólogos visitantes)

Logo....

O Estado deve emergencialmente fazer algo na saúde pública no que diz respeito ao aborto e os candidatos ao governo devem apresentar de forma clara suas propostas sobre isso.

Regulamentar o aborto não vai obrigar ninguém a fazer o aborto. As religiões contrárias ao aborto poderão continuar sendo e seus membros poderão continuar sem fazer aborto. Essas mesmas religiões poderão continuar a defender seu ponto de vista do que é vida e todos aqueles que compartilharem dele não abortarão. Simples. Essa mesma regulamentação vai evitar que as centenas de mulheres que não concordam com essa interpretação da vida de sofrerem sequelas ou de morrerem.

Sem a regulamentação:
Quem não quer abortar não aborta. Quem tem motivos pra abortar vai abortar e pode morrer.

Com a regulamentação:
Quem não quer abortar não aborta. Quem tem motivos pra abortar vai abortar e não vai morrer.

Quais delas é mais "a favor da vida"?
Tendo uma posição que considere o feto uma vida, vamos fazer a conta:
Sem a regulamentação são duas mortes.
Com a regulamentção é uma morte.

sábado, 16 de outubro de 2010

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Estado e Crime Organizado em Tropa de Elite 2


Boa tarde, meus caros.

Como muitos sabem, não sou um cinéfilo e pouco entendo de estética cinematográfica. Já adianto, assim, pedidos de desculpas pelas limitações desta postagem. Posto isso, vamos a ela.

Não gostei muito do primeiro Tropa de Elite, por diversos motivos: pelo olhar simplista lançado sobre o problema do crime organizado no Rio, reduzindo-o ao tráfico de drogas; pelo enfoque moralista lançado sobre o consumidor dessas drogas, responsabilizando este pelo problema da criminalidade e da violência; e, consequentemente, pela legitimação da violência policial frente a este caos, cuja culpa é atribuída aos indivíduos que, por questões sociais e psicossociais diversas, se envolvem no consumo e no próprio funcionamento do tráfico. José Padilha, roteirista e diretor, negou por diversas vezes essa intenção, por muitos denominada de 'fascista'. A corrupção policial, embora apontada, não aparece no seio do problema - ou, pelo menos, não é tratada assim pelos personagens envolvidos. Ademais, a referência comum ao 'sistema', na narração de Capitão Nascimento, não se confirma na atuação do próprio personagem, o qual não tenta combater o tal 'sistema', mas permanece no âmbito da culpabilização e da resolução pela força física.



No segundo filme, Padilha parece se dedicar a corrigir alguns desses problemas: o crime organizado não se reduz ao tráfico de drogas, mas envolve uma ampla gama de relações sociais, políticas e econômicas que se dão por fora da legalidade; o problema da criminalidade, portanto, não é individualizado, mas o próprio enredo e a atuação dos personagens demonstram a amplitude 'sistêmica' da questão; a questão, portanto, não é da ausência ou fraqueza de um Estado nesses nichos de domínio do crime organizado, mas um envolvimento perverso do Estado, por meio da corrupção policial, do clientelismo político, da construção de redutos eleitorais, da manipulação midiática, etc. Enfim, o foco deixa de ser individualizante e passa a ser sistêmico - e, nesse sentido, o Sistema não se reduz à política, ou ao poder executivo, mas trata-se de uma rede de relações, na qual diversos segmentos da sociedade tentam fazer valer seus interesses. Assim, a análise simplista é abandonada e a questão da legalização da maconha deixa de ser uma proposta implícita para a solução dos problemas - o próprio Padilha afirmou, em entrevista, ser a favor da legalização, mas não por achar que isto seria uma solução ao problema do crime organizado. Além disso, a própria arbitrariedade do uso da força policial ganha, no enredo, um contraponto, dado pelas críticas de Fraga ao sistema carcerário e à postura da polícia carioca.

Há de se destacar, ainda, um enriquecimento do personagem Capitão Nascimento, o qual, de forma descontínua, evolui no decorrer da trama - oscilando entre uma velha postura de resolução pela força com uma visão crítica do 'sistema'. A oscilação tem um fim no clímax da história, em que Nascimento, um personagem em processo de fragilização, formula sua postura frente à relação Estado-polícia-crime. Nesse sentido, é excelente a atuação de Wagner Moura, o melhor trabalho do ator que já vi até agora.

Mas nem tudo são flores. Vejo alguns problemas no segundo filme. Em primeiro lugar, não se aborda explicitamente como o 'sistema' reproduz a marginalização econômica, fator decisivo no desenvolvimento desse tipo de criminalidade. A sujeição dos moradores das favelas às milícias é claramente possibilitada por uma situação de escassez de recursos, de ausência de alternativas de vida - e isso vale tanto para a criança que vira 'avião' quanto para a senhora que aceita transformar sua casa em comitê de campanha eleitoral. Acho limitada uma visão da criminalidade como fruto puro e simples da desigualdade econômica, mas não se pode ignorar que este fator é importante nesse tipo de análise. Apesar das cenas do filme fazerem essa associação, a narração de Nascimento e a luta daqueles que querem a superação não contemplam esse ponto.

Em segundo lugar, vejo um discreto maniqueísmo ideológico em algumas cenas: a postura de defesa dos Direitos Humanos - personificada por Fraga, o 'bem' na história - é associada à esquerda - na sala de Fraga há um quadro escrito 'Marighella Vive!'; há um adesivo do MST que aparece, ao fundo, em uma cena na sala de Fraga; Nascimento se refere a Fraga como 'intelectualzinho de esquerda'. Embora eu seja simpatizante do socialismo, acho complicada a associação esqueda-bem-direitos humanos, até porque muitos atentados à humanidade foram realizados por supostos socialistas.



No mais, recomendo Tropa de Elite 2. E, como alguém que pouco entende de cinema, peço que complementem e critiquem minha análise. Até porque assistir apenas uma vez pode ter sido insuficiente para captar todos os elementos que seriam necessários.


quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Et moi, et moi, et moi...

Atento as tendências de Maio de 1968, o Beco traz para vocês Jacques Dutronc:



Et moi, et moi, et moi (tradução)

Setecentos milhões de chineses
E eu, e eu, e eu
Com minha vida e minha casinha
Minha dor de cabeça e de fígado
Eu lembro depois eu esqueço
É a vida, é a vida

Oitenta milhões de indonésios
E eu, e eu, e eu
Com meu carro e minhas crianças
E seu cachorro que late
Eu lembro depois eu esqueço
É a vida, é a vida

Trezentos ou quatrocentos milhões de negros
E eu, e eu, e eu
Que vou me bronzear
Na sauna pra perder peso
Eu lembro depois eu esqueço
É a vida, é a vida

Trezentos milhões de soviéticos
E eu, e eu, e eu
Com minhas manias e meus tiques
Deitado no meu colchão de plumas de ganso
Eu lembro depois eu esqueço
É a vida, é a vida

Cinquenta milhões de pessoas imperfeitas
E eu, e eu, e eu
Que assisto Catherine Langeais
Na televisão de casa
Eu lembro depois eu esqueço
É a vida, é a vida

Novecentos milhões de mortos de fome
E eu, e eu, e eu
Com meu regime vegetariano
Bebendo todo o whisky que eu tiver
Eu lembro depois eu esqueço
É a vida, é a vida

Cinquenta milhões de sul-americanos
E eu, e eu, e eu
Pelado dentro da banheira
Com uma menina que me esfrega
Eu lembro depois eu esqueço
É a vida, é a vida

Cinquenta milhões de vietnamitas
E eu, e eu, e eu
Domingo saio para caçar coelhos
Com meu fusil, eu sou um herói
Eu lembro depois eu esqueço
É a vida, é a vida

Cinquenta bilhões de pequenos marcianos
E eu, e eu, e eu
Um porra de um parisiense
Esperando que meu cheque caia no final do mês
Eu lembro depois eu esqueço
É a vida, é a vida

sábado, 9 de outubro de 2010

Onda conservadora?


Esses dias, o deputado reeleito Chico Alencar (PSOL-RJ) disse em uma entrevista que o país vive hoje uma onda conservadora. Embora Alencar não tenha explicado muito seu ponto de vista, confesso que ando há algum tempo com a mesma impressão - e admito que pode ser apenas uma impressão, mas não deixa de me assustar.

Tenho essa sensação, em primeiro lugar, pela fácil difusão do "medo vermelho", agora sob roupagem informatizada. E-mails difundem que Dilma não pode ser eleita e o argumento utilizado não é a fragilidade do seu projeto, a crise ideológica de seu partido ou sua concepção de Estado. O argumento, em algumas das vezes, é o do medo da iminente ditadura vermelha, que não tem fundamento nenhum. Em outras ocasiões, os e-mails espalham um moralismo infundado, desqualificando Dilma por ter sido oposição armada à ditadura (há alguns anos isso seria motivo de orgulho) ou por ter, supostamente, tido uma amante lésbica (pouco importa se a informação é verdadeira ou não, o que assusta é a postura preconceituosa que faz com que 'ser lésbica' esteja relacionado com 'ser má pessoa', ou algo assim). Esses e-mails extrapolaram a esfera do "cyberespaço" e chegaram, inclusive, à homilia de um padre da Canção Nova, transmitida ao vivo - veja que o padre inicia seu discurso dizendo que embasa seu posicionamento em e-mails. Observa-se, ainda, um profundo preconceito de classe em relação ao PT e, principalmente, aos atendidos pelo Bolsa Família - esses pobres, folgados, que não vão querer mais crescer na vida e que votam pensando apenas neles, não no país.

Em segundo lugar, o espaço ocupado por argumentos religiosos no debate político é exagerado e empobrece o debate. O problema não é o inevitável diálogo entre política e instituições religiosas - até porque as pessoas que votam são as mesmas que crêem, e as igrejas acabam, muitas vezes, constituindo-se espaços de reunião, criando meios de reivindicação a partir das instituições, desenvolvendo formas específicas de pressão institucional, etc. O problema é que os argumentos religiosos estão norteando o debate político, empobrecendo-o, reduzindo-o. Os principais temas debatidos vêm sendo o aborto e a defesa da família. O primeiro, nem chega a ser debatido, apenas é motivo de divisão entre os "contra" e os "a favor"; esquece-se que já há uma lei do aborto, mas que, pela grande incidência de mulheres prejudicando suas vidas ao fazer abortos fora da lei, alguns partidos defendem que a lei precisa ser revista, repensada, debatida exaustivamente. Não pode ser moeda eleitoral nessa discussão mal refletida. O segundo tema - a defesa da família - revela novamente um moralismo conservador, ao intencionar impedir os homossexuais de terem os mesmos direitos civis dos heterossexuais, em uma atitude profundamente preconceituosa por parte daqueles que têm saudades dos tempos da cristandade, em que os critérios da Igreja eram os critérios do Estado.

Em terceiro lugar, eventos isolados parecem indicar a emergência dessa onda conservadora - enfatizo o parecem, pois digo isso de impressão própria. Mas vejamos, por exemplo: o crescente posicionamento pela redução da idade penal; o caso Geisy Arruda, que revelou uma repressão coletiva moralista e humilhante; a bomba que explodiu na Parada Gay do ano passado, por um grupo denominado Impacto Hooligan; as reações elitistas à eleição de Tiririca, que a atribuem à "burrice do povo", e tantos outros.

Por fim, trago dois "documentos" relacionados com o exposto até então. O primeiro é uma foto emblemática - quem segue meu twitter (@enricobueno), já viu - do calçadão carioca com dois candidatos em campanha (a foto é do blog Duas Fridas). Do lado direito, temos Chico Alencar, do PSOL, com a camiseta de Gandhi; do lado esquerdo, Jair Bolsonaro, do PMDB, veste uma camiseta com a foto de Médici, o militar que governou o Brasil no momento mais intenso da ditadura (1969-1974). A foto oferece muitos elementos de análise, bem apontados pelo blog de onde a tirei. Mas quero trazer aqui que Bolsonaro foi reeleito com 120 mil votos. Alguém que fez panfletagem com a camiseta de Médici não deve ter escondido sua postura conservadora em campanha, e mesmo assim não perde em popularidade. Assustador. O outro "documento" é um texto, falsamente atribuído a Millôr Fernandes, que está circulando por e-mail. É uma breve apologia nostálgica à Ditadura Militar, que é repassada sistematicamente pelos que simpatizam com suas linhas.

Deixo, abaixo, os dois "anexos".

Agradeço sua atenção e aguardo suas críticas.

Abraços,

Enrico.



1. Foto:
Obs: clique sobre a foto e a veja ampliada em outra janela. Na camiseta de Bolsonaro está escrito "Era feliz... e sabia".


2. Texto

"Militares, nunca mais!" (Millôr Fernandes [falso])

Ainda bem que hoje tudo é diferente, temos um PT sério, honesto e progressista. Cresce o grupo que não quer mais ver militares no poder, pelas razões abaixo.

Militar no poder, nunca mais. Só fizeram lambanças.

Tiraram o cenário bucólico que havia na Via Dutra de uma só pista, que foi duplicada e recebeu melhorias; acabaram aí com as emoções das curvas mal construídas e os solavancos estimulantes provocados pelos buracos na pista.

Não satisfeitos, fizeram o mesmo com a rodovia Rio-Juiz de Fora.

Com a construção da ponte Rio-Niterói, acabaram com o sonho de crescimento da pequena Magé, cidade nos fundos da Baía de Guanabara, que era caminho obrigatório dos que iam de um lado ao outro e não queriam sofrer na espera da barcaça que levava meia dúzia de carros.

Criaram esse maldito do Proálcool, com o medo infundado de que o petróleo vai acabar um dia. Paraapressar logo o fim do chamado "ouro negro", deram um impulso gigantesco à Petrobras, que passou a extrair petróleo 10 vezes mais (de 75 mil barris diários, passou a produzir 750 mil); sem contar o fedor de bêbado que os carros passaram a ter com o uso do álcool.

Enfiaram o Brasil numa disputa estressante, levando-o da posição de 45ª economia do mundo para a posição de 8ª, trazendo com isso uma nociva onda de inveja mundial.

Tiraram o sossego da vida ociosa de 13 milhões de brasileiros, que, com a gigantesca oferta de emprego, ficaram sem a desculpa do "estou desempregado". Em 1971, no governo militar, o Brasil alcançou a posição de segundo maior construtor de navios no mundo. Uma desgraça completa.

Com gigantesca oferta de empregos, baixaram consideravelmente os índices de roubos e assaltos. Sem aquela emoção de estar na iminência de sofrer um assalto, os nossos passeios perderem completamente a graça.

Alteraram profundamente a topografia do território brasileiro com a construção de hidrelétricas gigantescas (Tucuruí, Ilha Solteira, Jupiá e Itaipu), o que obrigou as nossas crianças a aprenderem sobre essas bobagens de nomes esquisitos. O Brasil, que antes vivia o romantismo do jantar à luz de velas ou de lamparinas, teve que tolerar a instalação de milhares de torres de alta tensão espalhadas pelo seu território, para levar energia elétrica a quem nunca precisou disso.

Implementaram os metrôs de São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Recife e Fortaleza, deixando tudo pronto para atazanar a vida dos cidadãos e o trânsito nestas cidades.

Esses militares baniram do Brasil pessoas bem intencionadas, que queriam implantar aqui um regime político que fazia a felicidade dos russos, cubanos e chineses, em cujos países as pessoas se reuniam em fila nas ruas apenas para bater-papo, e ninguém pensava em sair a passeio para nenhum outro país. Foram demasiadamente rigorosos com os simpatizantes daqueles regimes, só porque soltaram uma "bombinha de São João" no aeroporto de Guararapes, onde alguns inocentes morreram de susto apenas.

Os militares são muito estressados.
Fazem tempestade em copo d'água só por causa de alguns assaltos a bancos, sequestros de diplomatas.. . ninharias que qualquer delegado de polícia resolve.

Tiraram-nos o interesse pela Política, vez que os deputados e senadores daquela época não nos brindavam com esses deliciosos escândalos que fazem a alegria da gente hoje. Os de hoje é que são bons e honestos.

Inventaram um tal de FGTS, PIS e PASEP, só para criar atritos entre empregados e patrões. Cadê os Impostos de hoje, isto eles não fizeram!

Para piorar a coisa, ainda criaram o MOBRAL, que ensinou milhões a ler e escrever, aumentando mais ainda o poder desses empregados contra os seus patrões. Nem o homem do campo escapou, porque criaram para ele o FUNRURAL, tirando do pobre coitado a doce preocupação que ele tinha com o seu futuro. Era tão bom imaginar-se velhinho, pedindo esmolas para sobreviver.

Outras desgraças criadas pelos militares:
Trouxeram a TV a cores para as nossas casas, pelas mãos e burrice de um Oficial do Exército, formado pelo Instituto Militar de Engenharia, que inventou o sistema PAL-M.

Criaram ainda a EMBRATEL; TELEBRÁS; ANGRA I e II; INPS, IAPAS, DATAPREV, LBA, FUNABEM. Tudo isso e muito mais os militares fizeram em 22 anos de governo. Pensa!!

Depois que entregaram o governo aos civis, estes, nos vinte anos seguintes, não fizeram nem 10% dos estragos que os militares fizeram.

Graças a Deus! Ainda bem que os militares não continuaram no poder!!

Tem muito mais coisas horrorosas que eles, os militares, criaram, mas o que está escrito acima é o bastante para dizermos: "Militar no poder, nunca mais!!!", exceto os domesticados.

Ainda bem que hoje estão assumindo o poder pessoas compromissadas com os interesses do Povo. Militares jamais.

Os políticos de hoje pensam apenas em ajudar as pessoas e foram injustamente prejudicadas quando enfrentavam os militares com armas as escondidas com bandeiras de socialismo. Os países socialistas são exemplos a todos.


ALÉM DISSO, NENHUM DESSES MILITARES CONSEGUIU FICAR MILIONÁRIO.

É MUITA INCOMPETÊNCIA!!!




Esclarecimento: essa postagem é expressão de um desconforto subjetivo, não uma análise sociológica ou politológica. As situações mencionadas, portanto, são fatores que contribuíram a este desconforto, não elementos de uma análise criteriosa.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O que será?

Ultimamente, pelo menos pra mim e meus companheiros de blog, compartilhamos de um sentimento de medo em relação as perspectivas de futuro, seja este futuro relacionado a qualquer âmbito de nossas vidas.

Tendo isso em vista, fico pensando no esquecimento de muitas "lutas" e conquistas recentes que tivemos: buscas de direito e igualdade, busca de uma democracia mesmo que até agora ilusória, liberdade de expressão, luta contra os vários tipos de repressão - repressões estas que, infelizmente, hoje vemos retratadas em vários indícios de apoio popular: vide o sucesso do filme do Tropa de Elite, principalmente pela euforia criada de seu caráter fascista, quando na verdade, ao menos no meu ver, deveria ser feito a crítica em cima desse mesmo caráter, baseada na repulsa de atitudes de pressão em qualquer esfera.

Sendo assim, vendo o descomprometimento e o esquecimento de todas essas conquistas e lutas:


O que foi feito do "O que será?"
Que resultado somos das promessas dos que passaram?
O que fizemos com o sangue derramado?
O que diriam os que pensavam e aclamavam "O que será?"

Breve esquecimento do passado ainda presente

Lavamos as mãos do esforço de outrora
E nos sentamos vazios em nossas cadeiras

Deixemos descobertas as marcas na parede!

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Greve dos Bancários

Bom, ultimamente cada senhor desse blog tem, talvez sem perceber, criado uma linha específica de postagem. As vezes até mesmo pelo título estamos conseguindo identificar quem é o ilustre 'postador'.

Sendo assim, para fugir da minha habitual linha de poesias, arte e tals, vou me intrometer na área dos outros.

Com a atual greve dos bancários podemos discorrer sobre alguns processos burocráticos que vem, há tempos, enfraquecendo a moeda de troca, de barganha, especificamente dessa classe. A modernidade, a tecnologia, vem nos oferecendo muitas oportunidades, como espaços de opinião 'paralelos' como os blogs, facilidades cotidianas, etc.

Há algum tempo começou uma aceleração do sistema bancário através de seus sites, gerenciadores financeiros, uso dos caixa eletrônicos muito incentivados dentro das agências, etc. Hoje vemos que todo esse processo desencadeou, como dito, no esvaziamento parcial da pressão de greve primeiramente exercida pelos bancários. Ou seja, a paralisação que num primeiro momento era sentida de forma imediata e brusca na sociedade, agora, a cada avanço da virtualidade no setor bancário vemos a proporção inversa da força dos comandos de greve.

Não sei até que ponto os banqueiros se sentem fortemente pressionados pelo atual sistema de greve tendo em vista todo esse entorno, já que a grande parte das transações e funcionamento dos bancos continuam operando quase que normalmente fora do âmbito físico das agências. Não há dúvida que a parte da sociedade que mais sente essa paralisação são as camadas mais baixas, que dependem dos serviços bancários para recebimento de salários, pagamentos comuns, mesmo que realizados em lotéricas, etc. Contudo, é essa mesma camada que exerce menos pressão sobre os banqueiros - não há aqui uma crítica. Os banqueiros, na sua totalidade estão preocupados com as grandes transações e investimentos que não dependem mais diretamente dos bancários.

Vemos então o sistema capitalista se transformando e se adequando para um resistência básica até as lutas garantidas na constituição aos trabalhadores. O principal ponto que queria colocar é justamente esse, tomando como exemplo o caso específico dos bancários. Como pensar então em processos de lutas sociais se o próprio sistema vem criando, de longa data, mecanismos que teoricamente anulam os próprios movimentos, sem enfrentá-los. Mecanismos que se descartam os discursos por não terem que ouví-los.

Nessas horas que se constata por muitas pessoas a impotência diante do todo, se conformando da situação atual e colocando-a como soberana, sem saída. Bom, se pensarmos assim então, para que dar continuidade  na própria vida em um sistema totalmente injusto e manipulador? O que nos resta é nos escondermos realmente na nossa individualidade e enquanto criticamos posturas políticas nestes espaços, vamos para a casa e ficamos totalmente transtornados por que os bancos estão em greve e não podem realizar os serviços que nos são necessários?

Uma sugestão de greve que coloco: fechamento total das agências juntamente com todos os servidores do sistema financeiro sendo colocados abaixo. Essa é a estratégia: o caos! Não de outra maneira se lutará de forma igualitária contra o sistema.

Nos faltam armas, meus caros. Nos faltam armas...

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Chega...

De política....ufa!! Isso cansa...rs..

Ou não?!
O que faz nos definir o sentimento - aquele perante de tudo, da desilusão de um idealismo, da cruel concepção do todo que pertencemos - como cansaço?

Estamos realmente cansados? Desiludidos talvez. Em alguns outros momentos melancólicos. Mas porque sempre trazemos à tona o cansaço?!

Não seria mais fácil dizer ou citar a nossa decadência?! Ou talvez nossa desilusão?! Quem sabe porque aglomeramos tanto sentimentos em um... assim como somos várias pessoas em uma....

Talvez se não aglomerássemos o todo em um só, tudo seria mais claro e fácil de definir. Mas enquanto não conseguimos, definimos este emaranhado de sentimentos como: Cansaço!

Ou Não?!



Não
Fernando Pessoa

Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
E um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...

Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Não. Cansaço por quê?
É uma sensação abstrata
Da vida concreta —
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...
Sim, ou por sofrer como...
Isso mesmo, como...

Como quê?...
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!...

E agora?

E agora?

Qual o menos pior?

Dilma ou Serra?

Eu voto nulo!

OBS: Deixo as discussões teóricas e complexas para meus colegas. Não tenho saco ou habilidade para tanto

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Comentários Breves sobre as Eleições

Boa tarde, meus caros.



Tempos de eleições nos despertam reflexões variadas, tendo eu grande dificuldade na escolha de um tema a ser abordado aqui. Assim, optei por fazer alguns breves comentários, oriundos de reflexões que surgiram em minha nebulosa mente durante esses dias, seja em relação às eleições no geral, em nosso modelo democrático-participativo, seja em relação a estas eleições.



- Em primeiro lugar, é comum ouvir de um público contrário a Lula que seu governo deu apenas continuidade ao governo FHC. Olhando apenas um lado da questão, de um ponto de vista mais amplo e estrutural, não é mentira: o modelo de Estado, a relação entre Estado-mercado, Estado-Igreja, etc. não mudaram; as medidas mais radicais demandadas pelos Movimentos Sociais que compuseram o próprio partido não foram atendidas. Enfim, desse ponto de vista mais amplo do modelo do Estado e sua relação com o mercado, nada mudou. Contudo, de um ponto de vista menos total, olhando com cautela as diversas vertentes que compõem o processo político, há mudanças relevantes: nas políticas sociais (que não divergem apenas quantativamente das do governo anterior, como gosta de dizer Serra), na política externa, nas relações econômicas exteriores (fortalecendo relações sul-sul e o Mercosul), etc. Não se trata, desse ponto de vista menos totalizante, de uma mera continuidade, mas de uma nova condução em alguns setores que compõe a política nacional.

- Em relação a esse público, normalmente médio-classista e pessedebista, eu observo uma fúria e um medo desmedidos e mal-justificáveis em relação à continuidade do governo Lula. A fúria costuma ser pautada nas denúncias de corrupção, nas alianças com figuras controversas e na crença de que a Bolsa-Família gerou um sem-número de folgados que não querem mais trabalhar Concordo que os casos de corrupção e as alianças são absurdos, mas, se o critério for estritamente esse, essas pessoas não deveriam votar no PSDB, que se aliou com ACM, Arruda, Quércia, etc. Isso além dos casos de corrupção em MG, das compras de votos por FHC para reeleição, etc. Em relação ao medo, este é mais infudado ainda: e-mails encaminhados anônimos, pseudo-pensadores e organismos da imprensa dão a entender, quando não dizem, que o PT está se tornando um governo ditatorial, anti-democrático, que vai restringir as liberdades de imprensa, manifestação religiosa, de expressão. Não há fundamento nenhum que justifique isso. O fato de Lula estar discordando explicitamente de um setor da imprensa não o fez tomar medida alguma de censura. O argumento do medo está sendo usado contra a Dilma de maneira abusiva e infundada, ainda que sem a presença ilustre de Regina Duarte.

- Já desconexo desses dois primeiros pontos, quero ressaltar uma terceira reflexão que venho fazendo. Há um e-mail circulando com as biografias dos candidatos ao Senado. Não vou nem discutir aqui a tendenciosidade das biografias, pois por mais que houvesse uma tentativa de imparcialidade por parte do autor do e-mail, é impossível ser imparcial quando se trata de política. Por seu caráter não-dogmático e aparentemente imparcial, este e-mail tem feito muito sucesso, levando muitos amigos meus a repensarem seus votos ao Senado. Contudo, a biografia é colocada na mensagem como fator essencial para escolha do voto. Conhecer o caráter ético do político e seu histórico no poder público é importante, claro. Mas tão importante quanto isso, ou mais, é conhecer a história do partido e a atuação do candidato em seu interior, sua proposta de governo, seus princípios fundantes, sua atuação em âmbito estadual, etc. Se olhamos para a biografia, analisamos apenas a questão moral, e não político-programática do candidato, o que pode ser perigoso.

- Sempre convém lembrar que a democracia vai muito além do voto. Temos direitos políticos adquiridos que nos dão condições para lutar pelas nossas demandas nos quatro anos que virão. Podemos nos organizar, protestar, fazer greve, mandar projetos de leis de iniciativa popular, abaixo-assinados, plebiscitos populares, etc. Há várias formas que a sociedade civil possui para se organizar, dentro e fora das instituições democráticas, na luta pela presença de suas demandas na agenda política. Não podemos nos iludir com a aparência de que a política se faz apenas nas eleições.



- Por fim, deixo claro que meu voto pessoal será em Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL. Este blog não é um jornal ou um partido, de forma que cada membro tem sua opinião pessoal que pode ser livremente expressa, como fez meu grande amigo em seu post Kill Dill. Plínio, portanto, é o meu voto, não o candidato defendido pelo blog. Voto em Plínio porque acredito que é possível e necessário que as mudanças caminhem além de questões pontuais ou políticas públicas específicas, mas que afetem a estrutura econômica, a relação capital-trabalho em favor dos prejudicados por essa mesma estrutura. Não falo, ainda, em construção do socialismo, mas em dar um primeiro passo no sentido de contestar e lutar contra o domínio irrestrito do mercado, em favor do trabalhador agrícola e urbano, empregado ou desempregado.

Bom, há mais coisas que eu gostaria de partilhar, mas está ficando enorme.

Por ora, fico por aqui.

Não espero vossa docilidade.

Abraços,

Enrico



Nota póstuma: como já estava subentendido, voto em Dilma no segundo turno.

Debates Históricos

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