segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Sobre a polícia na USP

Essa postagem não pretende ser uma interpretação conclusa do episódio, tampouco de qualquer um dos inúmeros fatores envolvidos. Quer apenas introduzir o tema, sobretudo àqueles que estão mais ausentes do debate. Os que buscam análises mais desenvolvidas e focadas, vide textos do último post.


O assunto do momento, na imprensa e redes sociais, é a luta estudantil no campus da USP. Para muitos, trata-se de uma luta dos estudantes contra a polícia pelo uso de drogas ilícitas no interior do campus. Essa é a versão amplamente divulgada. Ao analisar, entretanto, o histórico recente do movimento estudantil, bem como o que os próprios manifestantes dizem a respeito do embate, vemos que o adversário é a política educacional de um Estado cuja estrutura ainda é autoritária, e do qual a polícia é um mero instrumento. Vemos, ainda, que a pauta estudantil não é a utilização de maconha no campus, mas o episódio envolvendo a droga foi o estopim de um conflito mais amplo e sério.

Para quem se interessa pela construção da democracia e por uma segurança pública efetiva, o episódio seria uma bela oportunidade para debater uma infinitude de questões. Não só a legalização ou não da maconha, mas também: o papel de uma universidade pública; o problema da segurança nos campi universitários e possíveis trabalhos preventivos demandados; a fronteira (erroneamente) estabelecida entre universidade e sociedade; a questão da democracia para além das ditas instituições democráticas; o papel da PM em relação aos movimentos populares; e, finalmente, a PM ou não no campus.

Contudo, o que se vê são comentários rasos, desinformados e muitas vezes preconceituosos, como se a pauta dos estudantes fosse a legalização na maconha na universidade, e como se suas máscaras fossem sinal de vergonha ou criminalidade. O debate, em suma, é simplificado e distorcido, para ser finalmente engolido e degustado virtualmente, com recheio de um rancor inexplicável e uma ignorância sem medida.

Vale, ainda, ressaltar a contribuição do pensamento sociológico para a discussão. Ao dizer que o Estado se define por seu meio específico - o monopólio do uso legítimo da violência física, aplicado por um corpo técnico especializado -, o clássico Max Weber ressalta a impossibilidade de definição do Estado por seus fins. O que nos permite pensar (e Pierre Bourdieu o faz) que o caráter dos fins é arbitrário, em favor da classe/grupo social que ocupa a posição de dominação no campo político-social. Temos, assim, que a ação do corpo técnico especializado, a polícia, se dá sempre em função da arbitrariedade do caráter do Estado, em outras palavras, dos interesses da classe/grupo social que ocupa o poder político.

É preciso, portanto, fugir de leviandades no trato da questão, como se a polícia tivesse a missão imaculada de preservar a paz e fraternidade entre os homens, ou como se tratasse apenas da aplicação de uma “justiça” neutra e imparcial. É necessário, ainda, que exerçamos a criticidade na fuga de análises simplistas e unilaterais, e nos permitamos conhecer as questões mais profundas que estão por trás do acontecimento.

domingo, 13 de novembro de 2011

Dossiê: USP x PM

Caros, penso que seja desnecessário eu expressar aqui minha posição frente aos últimos fatos ocorridos na Universidade de São Paulo.

Assustado, porém, com a grande desinformação propagada por aí o tempo todo, farei aqui uma espécie de dossiê com materiais jornalísticos, além de vídeos, que ao meu ver saem do senso comum e trazem um debate mais sério e profundo sobre os fatos.

Saliento que as listas que seguem não são fixas e que serão constantemente adicionadas matérias dignas de menção (faço o convite também para que me ajudem na sua construção, enviando materiais que porventura ficaram de fora).

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Em defesa da sociologia

Senhor Reinaldo de Azevedo,

Antes de tudo, permita-me apresentar: sou recém graduado de Licenciatura em Ciências Sociais e no Bacharelado em Antropologia e atualmente curso o Bacharelado em Sociologia. Toda minha formação foi no estado de São Paulo, sendo a educação básica em instituições particulares e a superior no ensino público.

Venho através deste humilde Beco em que costumo me expressar, diferente da grande e glamurosa Avenida em que você escreve, discordar de alguns pontos levantados pelo seu recente artigo intitulado "O Brasil precisa de menos sociólogos e filósofos e de mais engenheiros que se expressem com clareza".

Se entendi bem, o senhor afirma que o ensino de sociologia no ensino médio seria inútil e a solução para isso seria aumentar a carga horária das aulas de português e principalmente de matemática para que se pudessem formar mais engenheiros e menos pensadores.

Bom, vamos por pontos, já que críticas direcionadas evitam generalizações.
O primeiro, claro, é nosso conceito de educação. A primeira impressão que tenho, já que o senhor não deixa isso evidente, é de que a sua concepção de escola ideal é aquela que vai direcionando seus alunos para o mercado de trabalho, ou seja, o aumento das aulas de matemática faria com que mais engenheiros se formassem. Bom, começamos a divergir aqui. Eu, por exemplo, nunca tive aula de sociologia na escola enquanto eram oito as aulas semanais de matemática e isso não direcionou a minha escolha profissional. Na minha concepção o intuito da escola é de iniciar aqueles jovens a esfera social, os apresentando ao mundo que os espera e aprendendo com suas reações. Achei um tanto curioso o fato do senhor citar Karl Marx para justificar seu argumento:

"Ele certamente diria que o mundo precisava mais de engenheiros que o transformassem do que de filósofos que o pensassem"

O senhor afirma que alguém que fosse verdadeiramente de esquerda defenderia a formação de trabalhadores como engenheiros ao invés de pensadores como os filósofos. Nesse ponto concordamos! Não sou um especialista em marxismo, só fiz as disciplinas básicas sobre o tema. Tenho colegas que poderiam fazer uma análise muito mais profunda e séria desse ponto, mas arriscarei umas palavras: Marx diz sim, e diversas vezes, que os trabalhadores são mais importantes para a transformação social do que os filósofos. Porém, o senhor esqueceu de um detalhe importante: para que esses trabalhadores façam a transformação social é preciso que tenham consciência de classe explorada e saiam de uma condição alienante e alienadora.

Veja só! Se diferente de mim o senhor defende mesmo uma concepção marxista de ensino, como deixa evidente no artigo (apesar de uma falha de interpretação), nossas propostas de educação podem se convergir.

Entendo que o maior objetivo do ensino de sociologia no ensino médio é despertar o senso crítico para todos os jovens que estão prestes a deixar a escola. Isso mesmo, para todos os alunos e não só aqueles que seguirão na área de humanas. E ter senso crítico não é necessariamente ser de esquerda: há na direita uma gama de grandes pensadores dotados do mais alto senso crítico. O objetivo do ensino de sociologia é fazer com que os jovens sejam capazes de olhar a realidade a sua volta e a questionem, ou seja, que não sejam passivos frente as informações que recebem e que sejam capazes de elaborar uma argumentação consistente na defesa de uma ideia. Isso evitaria, por exemplo, que milhares de pessoas lessem passivamente algumas revistas ou ainda assistem alguns telejornais sem questionar a neutralidade das matérias que são expostas.

Não sei se propositalmente, mas o senhor opõe no seu artigo "Engenheiros que se expressam bem" de "Filósofos que pensam". Ora, por que não engenheiros que pensam e se expressam bem? Em momento algum a sociologia defendeu, muito menos a marxista, que a formação de pensadores deveria ser superior a de trabalhadores. Aliás, os meus colegas mais engajados em movimentos populares defendem ardorosamente a formação técnica dos trabalhadores. A crítica feita é sobretudo ao caráter alienante de algumas condições de trabalho. Esse é o maior contra da especialização que o senhor tanto defende e ela é para ambos os lados. O que observamos hoje é uma total falta de conexão entre as áreas do conhecimento: são engenheiros sem nenhuma base "humana" com sociólogos sem nenhuma base "exata".

Outro ponto que critico é o caráter generalizante das suas análises. O senhor afirma que todos os professores usam suas aulas para propagar aquilo que chama de esquerdismo partidário. Isso é mentira e o senhor sabe bem disso. Eu sou sociólogo e não sou filiado nem simpatizante de partido algum. No colégio eu tive um professor de história que defendia o coronelismo da minha cidade, perpetuado por um partido de direita, com unhas e dentes. Ora, tanto ele não era esquerdista como de modo algum me convenceu de seu posicionamento. Não se pode menosprezar a capacidade de cognição dos alunos: eles não são papéis em branco onde o professor escreve o que quiser. Se há um problema tanto no professor esquerdista como no coronelista é a sua falta de profissionalismo e não a matéria que ministra.

Aliás, devo alertar que o senhor está mal informado sobre o Governo Alckmin: ele é muito, mas muito mais seu aliado do que nosso. Nesses 16 anos de governo do mesmo partido o que vemos é uma precarização crescente da área de humanas em contraposição a um vertiginoso aumento dos investimentos na área de exatas, sobretudo nas engenharias. Para isso basta acessar os indíces seja de salário, emprego e até mesmo financiamento acadêmico e de pesquisa. Quanto a educação soaria muito chavão eu dizer algo, basta visitar qualquer escola: são oito aulas de matemática contra uma aula de sociologia semanais.

Por fim, se permite uma crítica, me incomoda esses termos mesquinhos acompanhados de apelidos e broncas pessoais presentes na sua escrita: se sua intenção é fazer uma análise séria, essas coisas desqualificam seu trabalho. Tudo bem estarem presentes no seu blog, mas tenha mais cuidado ao publicar em uma revista com tamanha tiragem.

Atenciosamente,

Adriano Godoy

segunda-feira, 6 de junho de 2011

E por falar em machismo...


Antes da prometida continuidade à postagem de ontem, trago uma breve digressão (já que ontem falei sobre machismo...).

É uma propaganda da Sky, veiculada no intervalo do Globo Esporte (por que será?), cujo tratamento da mulher ocorre no patamar dos antigos anúncios das Panelas Panex ("um novo tipo de panela para um novo tipo de mulher"). E não me venham falar que é uma sátira ao machismo: é machismo puro. E, se alguem disser que o fato dela ter "erguido a voz" para pedir mais educação ao marido é expressão de autonomia feminina, estará tirando sarro da minha cara. Gisele Budchen (sei lá como se escreve) não só protagoniza uma típica Amélia-mulher-de-verdade-dona-de-casa, como também, em seguida, recebe uma ordem imperativa e grosseira do marido. Até que, por fim, é valorizada por seus atributos físicos (a velha objetificação feminina, em que a mulher tem o valor proporcional ao tamanho dos seios, pernas e nádegas) em uma cena digna de Pânico na TV!, o tipo ideal de machismo televisivo.


video



A pergunta que resta: onde está o CONAR (Conselho de Auto-Regulamentação Publicitária) numa hora dessas?


Em tempo: lembrei-me que já escrevi outrora sobre o tema : clique aqui para visualizar (atualizado em 10/06 às 21h35)

domingo, 5 de junho de 2011

Mais uma vez, sobre Política e Religião (1)

Boa tarde, camaradas.

O debate político-filosófico é de fundamental importância nesses tempos polarizados que vivemos no Brasil. Na medida em que fortalecem-se, na sociedade, demandas de cunho liberal (no sentido cultural do termo), sai também do armário um contingente conservador e anti-laicista, em uma verdadeira reação às possibilidades de conquista dos grupos sociais "minoritários". Intesifica-se, assim, um debate de concepções sobre as relações entre Estado e cultura (mais especificamente, entre Estado e éticas religiosas) que, no mais das vezes, tem extrapolado os limites da argumentação lógica e filosófica e configurado-se em ofensa e intolerância. Para dialogar com meu colega da última postagem, vou me valer também de expoentes acadêmicos.

As discussões acerca do machismo e da homofobia - desde "sempre" presentes na sociedade ocidental, mas que ganham destaque frente às discussões políticas recentes - costumam ser analisadas ora à luz da laicidade do Estado, ora à luz da interpretação bíblica que, segundo alguns, fundamenta tal machismo e tal homofobia. Pessoalmente, penso que as duas dimensões da religião (uma propriamente religiosa e outra propriamente política) são indissociáveis, de forma que é justamente por uma construção consistente (nem sempre coerente) do discurso teológico que instituições religiosas agregam capital político e ganham força para manter a universalização de sua ética particular, ou seja, ganham força para continuar negando a laicidade do Estado.

No caso das concepções machistas e homofóbicas que vigoram, já há muito, no discurso de um cristianismo conservador, vale a pena refletir essas duas dimensões. Ou seja, vale a pena refletir, e criticar, tanto a interpretação teológica que produz essa concepção conservadora, quanto suas decorrências no debate político. Assim, ao invés de me debruçar sobre uma das dimensões, procurarei criticar a ambas.




A crítica religiosa

Alguns revoltosos em relação ao cristianismo conservador, que busca impor sua ética por força de lei, vêm realizando queima de Bíblias e utilizando o argumento de que "A Bíblia é homofóbica e machista". No limite, contudo, tais revoltosos utilizam exatamente o mesmo argumento dos cristãos fundamentalistas: o de que a submissão feminina e a privação de igualdade aos homossexuais têm pricípios bíblicos inequívocos. A diferença é que, para uns, a Bíblia deve se converter em lei, enquanto para outros deve ser ignorada (ou, no caso, queimada)*. Sobre a questão, meu argumento é o de que a homofobia e o machismo na Bíblia não são inequívocos e que a leitura bíblica contemporânea permite (não só permite, como efetivamente produz) conclusões diversas.


Bíblia homofóbica?

Em primeiro lugar, o argumento de certos cristãos de que a homossexualidade é "contra a natureza" é completamente falacioso. Toda a humanidade, enquanto construção cultural, faz-se na dominação da natureza. Toda religião, enquanto construção social, é contra a natureza, afinal. É da "natureza" humana ser "contra a natureza". Tal argumento, aliás, nem é propriamente bíblico, mas achei que valia a pena mencioná-lo.

Em segundo lugar a Bíblia é composta de 73 livros que, por serem de autores diferentes e tendo sido escritos em tempos diferentes (entre +/- 800 a.C e 100 d.C.), muitas vezes expressa visões de mundo distintas entre si (um dos muitos exemplos: Paulo, em Fl 1, 18-19, enfatiza que a fé basta para a salvação; Tiago, em Tg 2,14-26, diz que a fé sem obras é morta). Há poucos momentos em que a homossexualidade é abordada, o que ocorre nos livros do pentateuco (Lv 18,22 e 20,13), a Torá judaica, bastante questionada por Jesus, e em alguns momentos das cartas de Paulo(o mais radical dos líderes cristãos da Igreja Primitiva), como em 1Cor 6,10. O tema, assim, é bastante lateral nas escrituras como um todo, sendo ausente, inclusive, dos Evangelhos, o "coração" da Bíblia.

Em terceiro lugar, os Evangelhos trazem Cristo tratando o amor universal como ensinamento principal. Sempre que Jesus necessita sintetizar seus ensinamentos, fala em "amar ao próximo como a si" ou "amar ao próximo como eu vos amo", etc. (Mt 5,44; Mc 12,33; Lc 6,27 e 6,35; Jo 13,34 e 15,12-17). E o exemplo mais vivo é com a adúltera reprimida pelos religiosos da época e acolhida por Cristo (Jo 8, 1-10). Madalena, mesmo tendo agido em desconformidade com os ensinamentos divinos, é tratada com dignidade por Cristo. Neste caso, para Cristo, mesmo aquele que não está cumprindo a lei de Deus, ou quiça nem acredita nela, não é merecedor de violência. Com a Parábola do Bom Samaritano (Lc 10, 25-36), Cristo não só mostra que o tratamento digno do outro deve transpor fronteiras étnicas e culturais, como também denuncia a hipocrisia religiosa de seu tempo (o sacerdote passa perto do sujeito que sofre e não o ajuda). Por fim, relembro o famoso "oferecer a outra face" (Lc 6,29), uma imagem que aparenta submissão, mas que é um forte exemplo do princípio cristão da não-violência.

Em suma, ainda que em certos momentos alguns personagens bíblicos (não o principal) recomendem a relação heterossexual, a questão da homossexualidade não pode ser tratada como inequívoca na Bíblia, uma vez que aparece muito lateralmente e por poucos personagens. Ademais, e o mais importante, ainda que se leia inequivocamente que a Bíblia, como um todo, recomenda a heterossexualidade, não é possível lê-la como homofóbica, dado que homofobia supõe violência, desrespeito, desamor, rebaixamento da dignidade humana, enfim, a degradação humana do outro. Os Evangelhos, referência principal do cristianismo, acentuam o imperativo ético do amor universal; pregam o reconhecimento da dignidade humana mesmo daquele que não segue as leis de Deus; e defendem o princípio da não-violência. A Bíblia, assim, não é, em si, homofóbica, mas passagens isoladas de seus contextos (internos e externos) podem ser apropriadas em favor da homofobia.



Bíblia machista?

Gastarei menos tinta com esse argumento. Se analisarmos a Bíblia com base no conceito de machismo, exterior a ela, É CLARO QUE A BÍBLIA É MACHISTA. Toda ela foi escrita no contexto de uma sociedade patriarcal, de clara dominação masculina. O termo "machismo", aliás, é recente bem como a contestação massiva dessa dominação. É completamente anacrônico aplicar o termo "machista" para analisar um livro de uma época em que o questionamento da dominação masculina não estava na ordem do dia. Se assim for, Sócrates, Platão, Marx e tantos outros também são machistas, porque se enquadravam na cultura de aceitação não-questionada da dominação masculina. Da mesma forma, Caio Prado Jr. (em sua juventude) e Domingo Faustino Sarmiento, dois dos principais pensadores da América Latina, seriam profundamente racistas, uma vez que possuem escritos que ratificam os argumentos da dominação branca sobre os negros. Vamos, assim, desprezar todos esses escritos? Tais conclusões se baseiam em uma leitura completamente anacrônica, aplicando um conceito recente a uma realidade antiga.

Em síntese, enfatizo que essa questão não estava colocada por aquela sociedade. Contudo, em uma sociedade em que o modelo tradicional de relação entre homem e mulher vem sendo questionado, uma exegese cristã deve pensar o contexto dos escritos bíblicos e os princípios inerentes aos ensinamentos, para então atualizar as ações. Repetir, sem reflexão exegética, as ações do passado é fundamentalismo. Vale ressaltar que o princípio da não-violência e do reconhecimento da dignidade do outro, que ressaltei ao falar da homofobia, é certamente aplicável também às mulheres (e o próprio exemplo que dei do Evangelho se trata de uma mulher) de forma que não está na Bíblia, em hipótese alguma, a violência machista.




A crítica política do conservadorismo religioso ficará para a próxima postagem. Agradeço muito meu camarada Adriano Godoy por levantar esse debate tão relevante na atualidade brasileira, tendo me inspirado a continuá-lo.

Abraços,

Enrico


*Atualizado em 06/06 às 09h50

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Política e Religião

Sim, meus caros, resolvi dar uma pausa em tudo aquilo que não deveria ser pausado e escrever aqui. Foram muitos e muitos os assuntos com potência de abordagem por este blog nos últimos meses (do bin Laden a Belo Monte passando pelo Egito). Porém, também são muitas e muitas as obrigações a serem executadas pelos moradores deste Beco e, infelizmente, pouco tempo nos resta para escrever algo que valha a pena ser lido.

Mesmo com a incerteza de que aquilo que eu escreverei valerá a pena ser lido, acabo de me lançar esse desafio. Ressalto, mais uma vez, que a falta de tempo implicará em um texto não revisado e escrito diretamente nessa plataforma. O que não significa que vocês não devam me criticar, pelo contrário. Feita a mea culpa e finda as parcimônias, vamos ao que interessa.

Esse texto deriva diretamente de outras publicações deste mesmo blog. Se for possível (re) leiam:
- O excelente texto de Enrico Bueno
- A série fuleira sobre religião, mas feita com boa vontade, desse que vos escreve

Escrevo em grande parte influenciado também por uma de minhas leituras acadêmicas. Pois é! Em meio a diagramas de parentesco e análises de ritos corporais, a gente também vê política em antropologia! Desculpem os politólogos e sociólogos que me leem dos absurdos que poderei falar.

O livro que me refiro foi fruto de um encontro promovido em 2004 entre, pasmem, Jurgen Haberbas e Joseph Ratzinger. Reunindo o filósofo do direito e o futuro papa frente a frente foi lançada a questão: "qual o lugar da religião no mundo contemporâneo?"


E por que cargas d'agua eu to falando sobre isso? Dado os rumos que temos acompanhado na cena política do país, essa questão se mostra mais que atual e pra mim imprenscindível de ser discutida.

Esses quatro assuntos, dentre outros, tem dominado os noticiários nada imparciais de nossos meios de comunicação e sucitado um amplo debate que, em linhas gerais, tem apontado tanto para um grupo dito conservador de um lado quanto para um grupo dito secular de outro. Continuando a generalização, de perspectiva oposta os conservadores são geralmente tidos como "religiosos/irracionais/moralistas" enquanto os seculares como "revolucionários/progressistas/drogados".

1) Como pudemos ver o kit anti-homofobia, chamado propositalmente de kit-gay, foi duramente criticado pela bancada evangélica até ser recolhido pela presidente(a) Dilma. O discurso senso comum propagado foi de que os evangélicos venceram os gays.
2) Por outro lado, o STF alguns dias antes aprovou a união estável entre homossexuais mesmo com duras críticas da CNBB. O senso comum apontou uma vitória dos "gays".
3) Em meio a tudo isso era organizada a marcha da maconha que, pela justificativa de apologia, resultou em pancadaria por parte da polícia. Vitória conservadora?
4) Os "cristãos", insatisfeitos com tudo isso, organizam agora uma marcha contra o kit, o casamento gay e a maconha.

Quero chamar a atenção para o discurso que tem se formado sobre isso. De um lado os religiosos tem acusado o governo de tomar bandeira contra questões de cunho moral enquanto os seculares tem exigido que os cristãos não se manifestem politicamente, sob a justificativa do Estado laico. É aí que o livro entra: para ele os dois lados estão errados.

Mais uma vez pasmem: a crítica maior do Papa é feita aos religiosos enquanto para Habermas o problema são os seculares. É a fé de Habermas e a descrença de Ratzinger. Já explico, mas antes cito.

"Em seu papel de cidadãos, os secularizados não podem contestar o potencial de verdade das visões religiosas (...) Os filósofos devem ouvir os representantes das religiões, pois eles tem muito a nos ensinar (...) O Estado não pode negar aos cidadãos religiosos o seu direito de contribuir nos debates públicos nos seus próprios termos" - Jurgen Habermas


É isso mesmo, o filósofo frankfurtiano defende que o discurso religioso é tão válido quanto o filosófico e por isso deve ser sempre respeitado. Com uma concepção que a democracia se faz na esfera pública, no diálogo, quanto mais plural e divergente forem as opiniões expressadas mais consolidada será.

"O terror se nutre pela moral. Se a religião também se nutrir torna-se um poder arcaico e perigoso que constrói falsos universalismos. (...) A religião é repleta de patologias e cabe ao direito e a razão purificá-la de seus vícios" Joseph Ratzinger

Sim, o futuro papa defende aqui uma religião tutelada pela razão para que não tenha tendências fundamentalistas e se afaste da moral e da pretensão universalista. Citando de Heidegger a Levi-Strauss ele demonstra como a naturalização da religião é perigosa e o direito é fundamental em uma sociedade democrática. Do mesmo modo, a ciência por sí teria alto poder de destruição e caberia a religião não deixar isso acontecer.

Divergindo em questões pontuais, porém, ambos os autores chegam amistosamente a conclusões bastante similares que, de maneira porca, pretenciosa e empobrecedora falarei agora.

Estes dois grandes pensadores da atualidade defendem sim uma participação dos religosos na esfera pública sem nenhum tipo de retalhação, constrangimento ou preconceito. O homem religioso em um estado democrático deve ter exatamente os mesmos direitos do homem secular.

Ora - você pode me dizer - então tanto o Papa como Habermas não concordam com o Estado laico? - Eu te digo: Estado laico não é Estado antirreligoso cara pálida.

O que ambos defendem é que a esfera pública tem uma lógica por si que legitima ou deslegitima os discursos postos. E essa esfera deve ser laica do mesmo modo que não deve ter uma ideologia dominante. Já aqueles que discursam, pelo contrário, devem ter um posicionamento religoso/ideológico/filosófico.

Exemplificando: nessa lógica tanto o Bolsonaro como o Malafaia estão absurdamente equivocados em usar uma linguagem com pressupostos morais na discussão sobre o kit. Já o STF teria agido com grande senso democrático ao convidar tanto a CNBB quando ao movimento LGBT a se expressar, na esfera pública e nos termos juridicos, sobre o casamento homoafetivo. Quanto a Marcha da Maconha e a Marcha Cristã, ambas como expressão ideológica de uma posição política, são extremamente legítimas e democráticas nessa esfera pública. O problema aqui, contraditoriamente, é o Estado brasileiro que usando da Polícia, com coerção física e moral, impede a plena realização da esfera pública.

A discussão sobre quem pode e quem não pode se manifestar que predmonia hoje tanto no senso comum como na imprensa não faz sentido já que em um Estado democrático como o brasileiro TODOS tem o DIREITO e eu diria o DEVER de manifestar suas posições ideológicas e políticas. A questão nodal, perdida nessa neblina de preconceitos, é de que o meio como essas posições são manifestas é que deve ser discutido.

Tratando-se de democracia você pode defender o que quiser se respeitar os meios de defesa.

ps: que venham os empiristas me tirar do mundo das ideias.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Sobre vestidos e burcas

Como todos vêm acompanhando, o caso da aluna hostilizada por centenas de colegas tem predominado nos noticiários das últimas semanas. Por ter ido à universidade usando um vestido supostamente curto a aluna foi agredida verbalmente pelos alunos causando um grande alvoroço desnecessário. Não fosse a proteção policial, pelo entusiasmo dos envolvidos possivelmente as agressões também seriam físicas. Dias após esse triste episódio, os administradores da universidade resolveram expulsar a aluna, legitimando a ação dos agressores e punindo a vítima.

Enquanto isso na Europa, chamada de desenvolvida, o presidente Sarkozy declara em um discurso, seguido de uma grande salva de palmas do público, que “Burcas não tem lugar na França” prometendo proibir o seu uso em todo país. Em nome do chamado “Estado laico”, o governo francês vem adotando medidas anti-religiosas e ferindo veementemente a liberdade de expressão no país, principalmente as referentes ao Islamismo. Tendo proibido o uso de símbolos religiosos nas escolas, como crucifixos e véus, a intenção parece ser de alastrar tal medida para os demais espaços. Não bastasse o preconceito sofrido diariamente pelos muçulmanos, agora os estão privando de seus costumes mais básicos.

Esses dois casos revelam uma atitude preocupante e com proporções globais: em pleno século XXI as pessoas ainda não conseguem lidar com as diferenças e apelam para atitudes autoritárias. Se o uso de um vestido foi capaz de fazer seiscentos universitários agredirem uma pessoa, o que esperar de questões mais relevantes? Uma vez que um governo decide, declaradamente, coibir os cidadãos de suas práticas religiosas e oprimir as minorias, considerando suas práticas inadmissíveis, não é tarde para relembrar que há menos de setenta anos cerca de seis milhões de judeus foram perseguidos e mortos por um governo, com o apoio da maior parte da população, justamente por sua diferença religiosa, cultural e étnica.

Não cabe ao Estado dizer o que uma pessoa pode usar se essa atitude não estiver ferindo o direito das demais. Do mesmo modo, ninguém tem o direito de recriminar ou, pior, de penalizar outra pessoa por uma crença pessoal. Assim como a liberdade de expressão política, a liberdade religiosa é fundamental na construção de uma sociedade mais democrática e pluralista. A normatização dos costumes, longe de contribuir para a consolidação de um país, empobrece sua cultura e salienta os preconceitos. Mais grave que uma pessoa querendo impor sua opinião à maioria é a maioria impondo seus costumes à minoria através da força, sendo esta política ou não.

As diferenças são o motor da sociedade, responsáveis pela dinâmica social e por essa importância devem ser defendidas e respeitadas. Um homem que usa um crucifixo no peito deve ser tratado com o mesmo respeito que uma senhora muçulmana que usa uma burca, assim como uma estudante que use um micro-vestido.

Ao invés de estigmatizar ou tachar as pessoas por suas aparências, deve-se considerar as pessoas em sua humanidade. A sociedade é composta por seres humanos e é apenas nessa condição de igualdade que devem ser tratados. Nenhuma condição menor, como o vestuário, deve ser capaz de superar isso. Nenhuma crença ou modo de se vestir deveria ser imposto aos demais.

Parafraseando Martin Luther King, a humanidade pode ter sido capaz de criar arranha céus, tecnologias de ponta, desembrenhar o genoma o humano e fazer vidas em laboratório, mas ainda está longe de conseguir dialogar e respeitar o seu semelhante.

Obs: esse texto foi originalmente publicado em dezembro de 2009 no jornal O Momento de Cachoeira Paulista/SP. Republico pela entrada em vigor, hoje, da lei francesa que proíbe o uso de véus em locais públicos.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Sobre transporte e individualismo

Por esses dias lá estava eu, um pobre estudante universitário, gastando minha magra bolsa de pesquisa com o abusivo preço cobrado pelo transporte público de Campinas (uma viagem de ida e volta ao centro da cidade tem o mesmo valor que três dias de almoço pra mim). Desiludido com o fato de não termos acesso a meia passagem já que a prefeitura aparentemente não considera que estudantes universitários sejam estudantes (?), me deparei com um grande adesivo sobre a porta que dizia

“RESPEITAR O IDOSO É RESPEITAR A SI MESMO”

Antes mesmo de eu refletir sobre os inúmeros significados da frase, percebi outro adesivo que dizia

“VANDALISMO NO TRANSPORTE PÚBLICO: QUEM PAGA É VOCÊ!”

Sem desmerecer as duas campanhas, é inevitável traçar a semelhança que rege as duas frases: "Você", o leitor, se não segui-la será penalizado. Isso não é uma crítica aos publicitários responsáveis, pelo contrário, é um elogio a capacidade deles em atingir exatamente aquilo que mais importa na sociedade ocidental contemporânea: o EU.

Se o jovem usuário do ônibus não dar lugar a senhorinha idosa, ele ficará com peso na consciência de no futuro um outro jovem não lhe dar o lugar. E, só por isso, cederá. O anúncio não leva o usuário a uma reflexão sobre a condição de um espaço público porque sabe que justamente essa reflexão não terá resultado algum. Colocar o jovem em contato com a alteridade de um idoso e a suas dificuldades de locomoção, logo, a prioridade no transporte público só iria fazê-lo bocejar. Se o "EU" não for ameaçado, o OUTRO que se dane. Do mesmo modo, uma conscientização sobre a função de um ônibus como transporte público dentro da esfera urbana e a sua fundamental importância para a dinâmica social de uma cidade como Campinas não iria despertar nem mesmo a intenção da leitura. Agora, falar que o EU pagará alguma coisa por eventuais danos é direto e simples.

A propósito, o trânsito é um ótimo local de referência sobre esse assunto. Como ciclista, diariamente me deparo com motoristas estúpidos cuja arrogância é proporcional ao valor pago pelo carro. São dezenas de carros estacionados sobre as ciclovias, sem contar que levo em média 10 minutos para atravessar a rua diariamente, mesmo estando sobre uma faixa de pedetres.

Diz a famosa frase "O poder não muda as pessoas, apenas revela sua essência".
Ter carro, no trânsito, é ter poder.


domingo, 6 de fevereiro de 2011

Propaganda Legal

Coisas de propaganda e design nunca fizeram parte dos nossos assuntos, apesar de curtir bastante.

Essa é uma propaganda da VW muito bem feita, na minha opinião, e vale a pena compartilhar.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Poesia sem nome

À porta do pensamento
Me batem os devaneios
Devaneios que se apresentam para mim
Como a própria realidade
Vizível, real
Porém não racional

Devaneio comigo mesmo
Em um plano superior ao próprio ser
Quando desço
Vejo que nunca subi
Ou subi talvez
e já fora do meu estado de transcendência
Nada faz sentido

Obrigações bastardas de cada dia
Me impedem o pensamento
Me impedem a vida

Busco nas mínimas oportunidades
A representação de um prazer reprimido
Que talvez não saiba qual seja
Prazer de alguma coisa que não vivo
Prazer de alguma coisa que não é o que me apresentam
E como me apresento

Sentado à janela
Penso em coisas que não me lembro
Um cheiro me traz a lembrança
Do que?
Da onde?

Me deparo com a vida e não a conheço.
Percebo que nunca a via
exceto agora

Me dou conta de que hoje
não caibo mais em mim mesmo
Não aceito a pessoa que está em mim
Não sou eu
Não sou o que queria ser

Desejo ser alguma coisa
Coisa que não sei bem o que
Tento me definir através das próprias coisas que já sou

Vejo o que não quero
Descarto!
Substituo pelo o que?
Amor? Bondade?
Não sei se os desejo

Busco respostas para o meu vazio
Só encontro a mim mesmo
Ainda no estado que não quero

Me conformo
Continuo a olhar pela janela

Quero algo mais
Para mim, não me basto


Ainda!

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Carta aos amigos III

É pedindo um tempo aos mau-entendidos passados que saludo vocês, caros amigos.

De todos os contratempos e desavenças na vida, é quando se encontra a real dificuldade que descobrimos o quão pequenos foram os acontecimentos passados, os quais tomaram tanto de nossas forças e pensamentos.

É com grande pesar e ainda dor em meu coração que venho para lhes dizer de meu filho. Postergo esse momento há meses, período de tempo que me afastei da realidade por não conseguir lidar com a mesma. Após meses de luta e dor, chegamos a uma hora onde não nos resta nada senão o alívio final. Mesquinho pode parecer o ponto de chegarmos a querer abdicar de certas situações no desejo de que elas se resolvam da forma mais rápida possível, tanto para o bem quanto para o mal. Contudo, ao ver o filho em situação desesperadora, sem mais forças, afundado em seus delírios e sem mais nenhum contato com a realidade; com uma ardência febril constante e sem tréguas; é então, neste momento, que pedimos para que o fim se aproxime e acabe com os momentos de sofrimento da pessoa amada.

Hoje fazem seis meses que meu filho se foi, e ainda procuro forças para me reerguer na vida. É com a alma esperançosa que lhes escrevo esse desabafo que me atormenta em meus sonos. Apesar de me justificar diariamente, ainda me culpo pelos momentos onde pedi para que meu filho desistisse de sua luta. Contudo, fria e calmamente vejo que não poderia mais suportar tamanha agonia tanto por sua parte, como da minha.

Espero encontrá-los em breve para que possamos relembrar momentos de alegria, tão caros hoje em minha vida.

Peço para que não respondam minha carta, pois esta é apenas um desabafo de um pai ainda corroído pelo remorso do que passou, pois, minha única esperança é que com esta vá embora também minhas dores.

Brito Corrêa.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Prefácio a "Carta aos amigos"

Meus caros!

É com muito prazer que retomamos esse blog e desejamos a todos um ótimo ano de 2011.

Agora já todos descansados e ainda ébrios das festividades de final de ano, está na hora do ócio criativo.

Sendo assim, anunciamos que no ano que se inicia, além da desconcordância regular dos posts e da falta de unidade dos assuntos, criamos mais inédita novela do mundo "bloguístico".

CARTA AOS AMIGOS

Sim meus queridos. Uma novela tão intrigante quanto Malhação, tão bem escrita quanto Passione, mais interativa do que Laços de Família e, quiçá, mais inovadora do que O Cravo e a Rosa.

Suspense, traição, amor, ódio, paixões avassaladoras, amizades que são resgatadas ou destruídas, revelações instigantes a todo momento, tudo isso e muito mais nessa novela que já apresentou seu dois primeiro capítulos.

Sorte de Agatha Christie ter nascido antes de nós pois, senão, não teria metade da reputação que lhe cabe hoje. Teríamos a ofuscado por completo.


Carta aos amigos II

Querido canalha: que você apodreça nestes livros de auto-ajuda. Por mim seria o mínim, depois do que você me fez.

Escrevo essa carta com o peso na ponta do lápis de toda a dor que passei. Me separei de você, não sem motivo, mas devido as circunstâncias que você criou.

No último encontro de turma que estive presente, não era a falta de felicidade ou saúde que te abalava, mas o excesso dela ao conversar com um loira, de pernas bem torneadas, no balcão do bar, enquanto eu e todos seus amigos assistíamos atônitos ao seu show de galanteios para com a moça, como se fosse um pavão se demonstrando para a fêmea. Até mesmo seus amigos solteiros ficaram com vergonha alheia de seu comportamento naquela noite. O problema maior não era você ser o galanteador do bar, mas suas desculpas  descaradas para justificar o acontecido.

Creio que seu arrependimento é tão fajuto quanto seu apego aos livros de auto-ajuda ou as histórias contadas por estes livros. Verdade mesmo é o que eu encontrei, que estava me alertando sobre você a todo tempo. Encontrei a verdade nos braços de Alana, minha amiga mais que especial.

Além de sempre contar suas canalhices, nas quais eu custava a acreditar, estava ao meu lado. Ela me ensinou a ter mais auto estima, a gostar mais do meu corpo, a conhece-lo melhor. Foi através dela que cheguei ao meu primeiro orgasmo verdadeiro, e não através deste seu pinto preguiçoso, que muitas vezes relevei em função do nosso amor.

Hoje Alana é minha mentora. Graças a ela me libertei do homem errado e encontrei enfim o prazer. 

Esta carta não é apenas para mostrar o quão errada eu estava a seu respeito, mas também partilhar o quão errada eu estava sobre mim.

Beijos.

Vivi.


Carta redigida pelo companheiro Rafael Marangoni

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Carta aos amigos

Meus caros.

Espero que essa carta lhes encontrem com saúde e felicidade.

De mim não posso dizer o mesmo, já que desde a última vez que nos reunimos enfrento inúmeros problemas em todas as esferas de minha vida.

Como bem sabem, na ocasião daquele último encontro havia acabado de me separar de Vivian. Acredito que vocês se lembrem da paixão avassaladora que tinha por tão fervorosa mulher, e podem também imaginar a mesma intensidade de dor que me causou sua rejeição, repentina, diga-se de passagem, para comigo.

Desnorteado, sem amigos próximos, pois havia me afastado de todos - afinal minha vida era em função de Vivi - resolvi, após meses de solidão e autoflagelamento, buscar ajuda no que descobri ser a fonte da verdade universal:  As seções de livros de auto ajuda de todas as livrarias.

E pensar que tudo ocorreu de repente, como obra do destino. Conheci os livros de auto-ajuda através de um acontecimento muito interessante: Um dos primeiros passos para me recuperar da falta de Vivi, como qualquer ser humano normal, foi buscar a ajuda de cartomantes, leitoras de borra de café, e toda sorte de profissionais do misticismo. Foi então que um dia, saindo de minha consulta semanal na casa de Madame Waleuska, vejo em sua mesa, ao longe, perto da porta, um livro chamado: A Felicidade e a Tristeza são Escolhas Nossas. Que coisa mais fantástica que é o destino, ou melhor, que coisa maravilhosa que é o cosmo trabalhando e colocando em nossa frente todos os dias energias positivas e soluções para os nossos problemas. Mas era claro! A minha solidão e o meu abandono foram escolhas minhas, assim como provoquei diretamente o afastamento de Vivi para comigo.

Saindo da casa da Madame corri para a livraria mais próxima e encontrei apenas um último exemplar desse mesmo livro. Fui para casa e o li na mesma noite. Era uma quinta feira, no mês de maio, chuvosa e fria, totalmente contrária ao calor que me tomou o peito após terminar de ler esse livro tão enriquecedor em minha vida. Agora tudo fazia sentido. Minha vida acabava de tomar outro rumo. Agora eu era dono da minha vida e dos meus sentimentos.

Contudo, assim como com a paixão por Vivi, me joguei loucamente no meio do universo dos livros de auto-ajuda. Depois de oito meses mergulhado com essa literatura já não conseguia mais ir à uma livraria e frequentar outros tipos de seções de livros.

Eu me esforçava para procurar livros de culinária, de artes, mas sempre acabava na seção de auto-ajuda. Comecei então a chegar ao cúmulo de, na falta de lançamentos, comprar novas edições de livros que já havia lido, procurando por novos comentários, entrevistas com os autores, etc.

Já não conseguia mais fazer absolutamente nada sem antes consultar um livro:

-Se estava muito sozinho lia "Dez Maneiras de Lidar e Acabar com a Solidão"
-Antes de sair para um restaurante na esperança de conhecer alguém, lia "Vença o Medo de Conhecer Novas Pessoas", juntamente do livro "Conversas Básicas para um Primeiro Encontro"


E assim foi, durante meses, eu preso ao que tinha sido minha libertação.

Hoje, já consegui, novamente, mudar um pouco da minha vida. Agora descobri a felicidade e as lições de vida através dos reality shows: Isso sim meus queridos. Isso sim é que é verdade. Isso sim que é vida na sua mais pura forma. Mas o detalhamento deles deixo para uma próxima carta.

Bom meus caros, gostaria apenas de partilhar de minhas experiências para que os meus erros não sejam os seus.

Um efusivo abraço e espero respostas em breve.

Att.

Demerval de Freitas