quarta-feira, 6 de maio de 2009

"Minha liberdade é escrever. A palavra é o meu domínio sobre o mundo." C.L.



Clarice Lispector é autora de romances, contos, livros infantis e textos jornalísticos. Como quase toda literatura da época, ela era influenciada pela forma de arte modernista.
Considerada uma autora de subjetividades, que dava ênfase em questões existenciais, metafísicas e filosóficas, mas, levando-se em conta o momento histórico em que escrevia, recebia inúmeras críticas, por não deixar claro em suas obras, um posicionamento político, nem frente à questão do judaísmo – o motivo que fez sua família deixar a Ucrânia - , nem frente à ditadura militar.
Embora a autora tenha ganhado fama por seus escritos que ressaltam questões subjetivas, há sim, em sua obra o retrato e a contestação das diferenças sociais brasileiras, e isso tanto no tema abordado nos romances quanto na forma poética de escrever as histórias.
"A paixão segundo GH" é um marco nas obras da autora, pois ao mesmo tempo em que reafirma as questões individuais, metafísicas, traz pela primeira vez a questão das diferenças sociais e suas conseqüências. Não me estenderei falando deste livro, pois é na obra "A hora da estrela" que a questão da pobreza, da marginalização das classes oprimidas e da reprodução de um sistema injusto existe de maneira muito enfática. Não farei aqui um resumo dessa história, pois ele pode ser facilmente encontrado por ai, tentarei ressaltar outros pontos, ligados a autora.
Em "A hora da estrela" Clarice Lispector e o personagem escritor-narrador Rodrigo, se confundem. A autora mistura ficção e realidade, ela, através de Rodrigo, demonstra a dificuldade que o intelectual brasileiro tem de retratar a população de baixa renda, a distância que separa as camadas privilegiadas dos menos favorecidos. Além disso, Clarice reconhece a situação dual do intelectual, divido entre o compromisso com os marginalizados e sua dependência do sistema já existente, para o qual colabora na reprodução das idéias “dominantes”, da moral e do tradicionalismo em troca de alguns privilégios. No livro, podem ser observadas também críticas da autora aos meios de comunicação de massa (o rádio que Macabéia ouvia todos os dias) que também trabalham a favor da reprodução, à presença quase cotidiana no Brasil da prostituição, do charlatanismo e da ilegalidade não punida.
Quanto à estética, A hora da estrela está dentre as obras onde Clarice faz opção pelo feio, a autora denomina de “literatura feita com a ponta dos dedos”, a utiliza depois do golpe dos militares em 1964. A lógica é usar de uma estética feia, para retratar uma situação nacional de igual feiúra, portanto, uma posição política e ideológica de Clarice.
Durante todo o livro, a autora faz um retrato dos “dois Brasis”, que vivem lado a lado, especialmente nos centros urbanos: de um lado o rico (materialmente, culturalmente, detentor dos meios de comunicação, etc), ambicioso, influente e estudado, e do outro o pobre, explorado, indigente e que nem ao menos consegue articular suas próprias idéias.

Deixo aqui algumas perguntas, além é claro, de esperar qualquer tipo de comentário sobre o texto, Clarice, etc.

A arte carrega em si uma obrigação de contestar a realidade?
E a arte pela arte?
O que dizem/ fazem nossos intelectuais? Reproduzem um sistema já existente? Se sentem compromissados com os marginalizados?
Um Beijo!
Colombina

9 comentários:

  1. "Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento."

    Clarice Lispector

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  2. querida colombina,

    lindo post! clarice merece mesmo ser louvada!

    sobre a arte, acredito em seu caráter contestador, bem como a arte pela arte, creio que não haja obrigação nenhuma, embora seja um belo meio de contestação, como vemos tantos exemplos por ai... só nego a arte comercial, aquela criada sendo racionalizada se será vendável, sou a favor da arte pelo prazer, pelo dom, mesmo pelo desejo de se fazer ouvido, mas não de se tornar cifra.

    quanto aos intelectuais, creio que também haja essa dualidade, alguns a consideram uma mentira; outros, um desabafo; tantos a relacionam a uma visão "fantasiada" da realidade, mais fácil de ser aceita...

    abraços!

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  3. É, realmente, muito legal; meus cumprimentos Colombina.

    Bom, sobre a arte, acho que ela tem uma obrigação com o sentir, humanizar. Talvez uma forma de fazer isso seja protestando, mostrando como a realidade é absurda, e as pessoas acostumadas a ela já não se sensibilizam mais. Já os intelectuais; bem... acho q eles têm uma grande responsabilidade social (assim como os artistas), mas acho que tratam a coisa (destaque à palavra) como abjeto de estudo, só.

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  4. Penso eu Colombina, que estamos em um grande dilema, tantos intelectuais quanto artistas: vivemos para o que fazemos e seremos engajados socialmente e contestadores e nos contentamos com o que prover disso, logo sabemos que é difícil ficar rico ou viveremos sonhadores e escravos do sistema que privelegia financeiramente os que não tomam este tipo de atitude?

    beijo

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  5. Intelectual compromissado com marginalizados?
    que mundo vc vive querida? Intelectual vive no mundo dele!

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  6. visitante solitário8 de maio de 2009 10:04

    Companheiro Anônimo I, em que mundo VOCÊ vive?!

    Nas certezas que possui, nos leva a pensar que não conhece nenhum intelectual que se preze, a não ser aqueles bem senso-comum... Aposto que exemplo de sociólogo me daria Fernando Henrique Cardoso, lamentável...

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  7. visitante solitário8 de maio de 2009 10:05

    retificando, na verdade é Anônimo II.

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  8. Meu caro visitante solitário, não sou do ramo da Sociologia, mas para mim intelectual apenas trata ,como bem disse um post anterior, os marginalizados como abjeto de estudo.Me diga um intelectual que vive junto com os marginalizados?

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  9. Patrcinhas do Ifch super se preocupam com marginalizados... até preciso rir...

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